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A distopia noir de Blade Runner + Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?

Às vezes, antes de dormir, vou até a varanda de meu apartamento no 15º andar pra pensar, esta São Paulo ainda tão tarde acordada me fascina, montanhas de concreto sendo sustentadas por luzes, faróis de carros parecem flutuar em meio à escuridão, uma cidade que não para, esta deslumbrante visão da humanidade me encanta e é quase como se eu conseguisse escutar Blade Runner Blues sendo tocado por este céu sem estrelas, não é por menos que Blade Runner é meu filme favorito, há tempos quero escrever sobre ele, mas é um filme tão complexo e com tantos dilemas abordados que não saberia por onde começar, lendo o livro (Androides sonham com ovelhas elétricas?) pela 2ª vez não me contive e agora estou escrevendo tanto para simplificar o filme quanto para abordar informações e curiosidades sobre esta ficção científica noir dos anos 80.


O criador deste universo foi Phillip K. Dick, autor pouco conhecido aqui no Brasil mas muito famoso por ter escrito romances e contos que inspiraram filmes como Minority Report, O Vingador do Futuro ou até o próprio Blade Runner (uma coletânea de seus contos pode ser lida no maravilhoso Realidades Adaptadas),  Dick era um fanático, acabou dedicando sua vida inteira por suas histórias, histórias estas que retratam muito bem dilemas sociais e pessoais desde desmatamento a essência humana, ele era um gênio que conseguia falar sobre a nossa sociedade como poucos, e isto sempre usando uma aparente distopia que torna tudo ainda mais interessante, e em 1968 ele escreveu sua indiscutível obra de arte, Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? (Do Androids Dream of Eletric Sheeps?), Um livro sombrio e extremamente perturbador que conta a história de Rick Deckard, um Blade Runner (ou caçador de recompensa na excelente tradução), ao contrário da maioria dos sobreviventes à guerra atômica ele ficou na terra, suja, gasta e superlotada, em uma São Francisco decadente digna de subúrbio, a poeira radioativa dizimou a maioria das espécies de plantas e animais, e em busca de um sentido para existência ele trabalha cada vez mais para “melhorar” de vida, seu maior desejo é trocar sua ovelha elétrica por uma orgânica e real, o que era apenas um sonho de consumo até o dia que ele recebe a missão de aposentar 6 replicantes,  mas suas convicções podem mudar quando ele descobre que os replicantes Nexus 6 são quase humanos, e enquanto a linha tênue entre a humanidade e a maquina desaparece se torna uma questão de principio matá-los ou não, ainda mais quando você se apaixona por uma dessas maquinas por encontrar nela o amor pela vida que você já não tem.

O que é um replicante? – Replicantes são um tipo de androide, só que incrivelmente realísticos, são praticamente humanos criados, mais fortes, inteligentes e ágeis, são criados por vários motivos desde para satisfazer a luxúria de um homem até para ser um escravo na colônia em Marte, os replicantes eram controláveis até lançarem os Nexus 6, que por serem humanos demais por medida de segurança foi implementada uma data de validade de 4 anos, o maior problema com os Nexus 6 é que eles começaram a ter sentimentos e instinto de sobrevivência, por causa disso a maioria deles acabou fugindo ou passando a viver nos subúrbios, os blade runners (ou caçadores de recompensa) são os que tem o dever de capturá-los. O nome "Replicante" não é citado no livro, foi uma ideia do próprio roteirista David Peoples, que enquanto estudava réplicas celulares com seu filho acabou pensando nisso.

A narrativa do livro é excelente, a maneira em que o mundo é apresentado é de se impressionar, uma história que consegue te intrigar como poucas, mesmo sendo um livro sobre identidade, diversos outros temas são abordados, imperdível para qualquer um que queira pensar um pouco sobre a vida, morte, sociedade, evolução, religião, essência humana e quando foi que perdemos ela. Ainda tento entender como foi que Dick conseguiu abordar tantos temas em 200 páginas, mas inacreditável mesmo foi Blade Runner ter tratado destes mesmos temas em 1 hora e 40 minutos de filme, lamentável que Dick tenha morrido algumas semanas antes da estréia do filme que imortalizou sua obra para sempre.

Ridley Scott explicando uma cena para
Harrison Ford
O ano era 1982, Ridley Scott vinha de um dos maiores blockbuster dos anos 70, Alien, isso sem dizer que ele tinha convencido o astro de Star Wars e Indiana Jones (Harrison Ford) a participar do filme, vender para uma produtora foi simples, o problema é que ela tinha uma expectativa de um filme que levaria todo o grande público para o cinema, um filme como Star Wars e Alien, eis que Ridley Scott entrega um filme +16 repleto de diálogos sem contexto onde as coisas não são explicadas, a violência está presente e o futuro ao invés de lindo é decadente. Os produtores odiaram e obrigaram Scott a diminuir o filme, tirar a violência, modificar o final para um feliz e adicionar uma narração em off de Harrison Ford explicando o filme do inicio ao fim (Harrison Ford era contra isso e a narração em off pareceu preguiçosa de tão mal feita, talvez falta de profissionalismo), além de deixar claro que Deckard não era um replicante, já sabemos no que dá interferir na arte e ao lançar Blade Runner (que inclusive não foi o primeiro título imaginado, o filme em período de produção mudou de nome várias vezes, "Mecanismo" e "Gotham City" foram alguns dos títulos cotados) no inicio de 1982 tiveram um recepção horrível, o longa foi mal de público e crítica, um fiasco total que talvez acabaria com a carreira de Scott, ainda bem que naquele mesmo ano foi lançada o VHS de Blade Runner, que foi um sucesso no mundo todo, e convencidos do potencial do filme alguns meses depois Blade Runner - O Caçador de Androides foi lançado nos cinemas do resto do mundo e não só conseguiu se pagar como foi um sucesso. Blade Runner tem como um dos principais assuntos abordados o encontro da identidade, e é um filme que precisa achá-la, afinal Blade Runner tem mais de 30 anos e já possuí 7 versões, cada uma com suas pequenas diferenças (as melhores são Blade Runner - The Final Cut, de 2007 e Blade Runner - Directors Cut, de 1992). Impressionante pensar que até ser lançada a versão de diretor as pessoas viam Blade Runner mais pelo seu visual fantástico do que por história, a versão conhecida como "verdadeira" é a Directors Cut, que nem deveria existir, um aluno de cinema havia encontrado essa versão no colégio e começou a passar em circuitos fechados, e vendo o sucesso a produtora lançou esta versão oficialmente. Abaixo o final original da primeira versão de cinema, chega a ser tosco se comparado ao nível e ao contexto do resto do filme:



Uma curiosidade é que estes takes externos não foram gravados por Ridley Scott e sim pelo Kubrick, que tinha estas cenas guardadas em seu acervo pessoal, originalmente deveriam ser de O Iluminado.

Atualmente é difícil de se encontrar a versão original de Blade Runner, mas se quiser ver como são as mudanças de roteiro citadas, neste link (http://www.trussel.com/bladerun.htm) se encontra o roteiro modificado da primeira versão, é curto e interessante, vale a pena lê-lo.

Agora vamos falar do filme em si: Bom deixar claro que a versão que será analisada é a de diretor, apesar de serem mudanças sutis de uma versão pra outra pode ser que eu cite algo que não esteja presente em outros DVDs. Recomendo que assistam o filme antes de lerem abaixo pois pretendo dissecá-lo sem me importar muito com spoilers,

O filme começa nos situando do que está acontecendo: "No inicio do século XXI, A Tyrell Corporation avançou na evolução de um androide para a fase Nexus - Um ser idêntico aos humanos conhecido como replicante - Os replicantes Nexus 6 eram mais fortes, ágeis e, pelo menos, tão inteligentes quanto os engenheiros genéticos que os criaram.
Os replicantes eram usados fora da terra , na arriscada exploração e colonização de outros planetas. Após uma revolta de uma equipe de combate Nexus 6, em uma dessas colônias, os replicantes foram declarados ilegais na terra - sob pena de morte.
Brigadas especiais da polícia - as unidades Blade Runner - tinham ordem para atirar e matar quando detectassem um replicante.
Não se chamava de execução, e sim de aposentadoria."
"Los Angeles, 2019"

Acho que um bom primeiro ponto para tocar seria a direção, Ridley Scott estava em seu ápice, e acabou criando uma Los Angeles bonita e feia ao mesmo tempo, se por um lado a destruição e o caos estão presentes junto com prédios decadentes e um futuro triste, por outro ver aqueles carros voadores e naves coloridas atravessando painéis gigantescos é uma sensação sem igual, ainda mais com aquelas músicas lindas. Cinema Noir é aquele cinema preto e branco policial dos anos 50, ele é uma mistura do expressionismo alemão e do neo-realismo italiano sendo inspirado na literatura clássica investigativa, o conceito de Noir é apresentar passo a passo uma investigação criando uma atmosfera calma e sombria, onde as a iluminação serve para expressar a tensão da cena, um exemplo:

Frame de Blade Runner
Na teoria Blade Runner é ultimo filme noir, apesar de colorido e futurista o filme é construído aos moldes de um noir, outro ponto a se elogiar, tanto as cenas em espaço confinado quanto os takes abertos costumam usar a iluminação a favor da cena, o que de fato cria todo um clima investigativo e sombrio, até triste em alguns momentos, que é o que Scott queria apresentar, ao colocar Blade Runner em preto e branco é possível ver a similaridade:



Ser uma ficção cientifica futurista e apresentar um clima clássico é totalmente condizente com a obra que fala sobre perda da identidade, é extremamente inteligente a maneira como isso é apresentado em tela, futuro noir, pessoas desumanizadas, e maquinas humanizadas, aonde está a identidade? Nos perguntamos isso quando até mesmo o novo mundo, Estados Unidos, tão singular quanto a sua cultura, está "invadido" por outros povos, estrangeiros aos montes e dezenas de línguas diferentes são ditas ao decorrer do filme, como que 2019 pode parecer tanto com os anos 50 e ser algo plausível? Em Blade Runner parece que o próprio mundo sofreu uma crise de identidade. Ao nos apresentar a este futuro decadente a fotografia e direção conseguem expressar o quão errado estamos fazendo ao planeta, nos mostrar que estamos sacrificando a natureza sem precisar necessariamente ter um diálogo explicando isso. Apenas por sua arte.

São Paulo Neo-noir
O filme tem momentos silenciosos e quietos não como problema de ritmo mas para termos um momento de reflexão e entendermos a confusão mental dos personagens, Rachel não precisa nem esboçar reação para entendermos e nos emocionarmos com o que se passa dentro dela. Outro ponto que merece ser destacado são as cenas de ação, são extremamente tensas e bem dirigidas. Algo que descobri fazendo as pesquisas para este post é que a direção de arte não é só reconhecida pelo ambientalismo citado acima, mas também pelo figurino, existe uma parte da moda conhecida por neo-noir que foi inspirada nos figurinos de Blade Runner e que de fato existe e é estudada, como se fosse uma repaginada das roupas femininas do filme para perder a essência anos 80 e se tornar um visual moderno porém clássico. Direção de arte transpôs tão bem o mundo de Andróides Sonham com Ovelhas Elétricas? que o próprio Philip K. Dick, antes de morrer, viu as artes conceituais do filme e disse que está perfeitamente igual o jeito que ele imaginava.

Os efeitos especiais são ótimos, apesar do filme ter sido feito há mais de 30 anos, foram feitos inteiramente com maquetes e efeitos práticos, o que funcionou bem, se o filme tem um futuro que nunca será datado seus efeitos também não, as únicas coisas que são de fato efeitos especiais aparecem de maneira sútil no fundo escuro e na chuva, inclusive a equipe teve um grande problema em criar maquetes tão grandes a ponto de parecerem cidades, produzir prédio a prédio engenhosamente deu muito trabalho, em um frame inclusive é possível ver ao fundo uma millennium falcon escondida para parecer dois prédios. Por estes motivos que o filme na época custou uma fortuna, foram 30 milhões de dólares, na época era muito para um filme, e isto explica o desespero dos produtores para o filme ser sucesso de bilheteria.

Rutger Hauer
Outro ponto forte do filme são as atuações, acho que este foi o primeiro filme que eu reparei em como os atores são necessários para o desenvolvimento dos personagens, não sei se o Ridley Scott que dirigiu bem os atores mas Blade Runner tem indiscutivelmente um casting perfeito, difícil de se explicar como o elenco do filme se encaixa bem, Deckard não é um papel difícil, ainda mais para Harrison Ford, um ator já consagrado na época, Ridley Scott teve a ideia de contratá-lo quando assistiu Indiana Jones. Joe Turkel (claro, junto com o excelente roteiro) consegue arrepiar como Tyrell, ele faz um incrível criador, assumindo para os androides um papel de Deus (por ter sido o criador deles) ele tem diálogos fantásticos como "...eles são inexperientes e tem poucos anos para coletar experiencias que nós achamos corriqueiras, fornecendo para eles um passado criamos um amortecedor para suas emoções e os controlamos melhor. Mais humanos que os humanos, nosso lema. A luz que brilha o dobro arde a metade do tempo", excelente. Mas o que faz arrepiar na atuação são os replicantes, se encaixaram perfeitamente, Rutger Hauer, Sean Young, Daryl Hannah, Joanna Cassidy e Brion James fazem um ótimo papel, com destaque para a Rachael de Sean Young que demonstra uma complexidade muito grande e ao expressar o que sente apenas pelo olhar ela nos mostra uma personagem de várias camadas, destaque também a Roy Batty de Rutger Hauer que é simplesmente indescritível, é um dos personagens mais bem construídos que já vi e demonstra uma dualidade moral muito grande, e por ser um vilão androide é interessante ele conseguir nos apresentar esta dualidade que, mesmo torcendo por Deckard é difícil não entender as motivações e os desejos de Roy, ainda mais quando o que ele quer é algo tão mundano para nós, a vida, parte da frase mais clássica do filme foi improvisada por ele, "Todos estes momentos vão se perder no tempo, como lágrimas na chuva" dizem que no roteiro após "no tempo" estava escrito algo que Rutger não achava que fazia coerência para o filme, então ele no próprio set e sem avisar ninguém mudou o monólogo, felizmente, mas não se sabe qual era a frase original do roteiro e nem se realmente existia outra frase e ele apenas adicionou. Só sei que Rutger Hauer é extremamente talentoso e que é entristecedor que ele tenha feita tão poucos papéis bons em outros filmes.

Vangelis
Não posso deixar de citar a maravilhosa trilha de Vangelis, o que Vangelis fez com Blade Runner é algo que não pode ser explicado, apenas escutado, a trilha não só é uma das mais bonitas do cinema como no contexto do filme ela se aplica muito bem, a música de Vangelis cria o clima ideal para a história e o ambiente, tanto é que nos sets de Blade Runner Ridley Scott colocava as músicas tocando antes de gravar para os atores entrarem no clima, é fantástico, Vangelis com certeza estudou muito o script para compor, é muito bem calculada e cria momentos inesquecíveis, Rachels Song, One More Kiss, Dear, Blade Runner Blues, Tears in Rain são músicas inesquecíveis (clique aqui para playlist com a trilha completa). Quando um carro levanta voo ao som de Vangelis parece que ele consigue levar sua alma junto. Para quem não conhece o trabalho de Vangelis recomendo fortemente, ele fez a trilha de Carruagens de Fogo, Rebelião em alto mar e até do épico dirigido por Ridley Scott 1492 - A Conquista do Paraíso, escutem Conquest of Paradise, é muito bom.



Pensando bem, Blade Runner é um filme sobre humanidade, onde todos buscam se completarem, Deckard busca os replicante e a si próprio. Enquanto persegue o amor de Rachel, que tenta encontrar razão na sua inexistência enquanto os outros Nexus 6 procuram vida, O filmes na verdade tenta mostrar a dificuldade de se identificar a humanidade, não no sentido biológico, biologicamente os replicantes são seres materiais, mas retirando o sentido biológico e se concentrando no sentido de humanidade como uma essência (exemplo quando dizemos que uma pessoa é mais humana que outra), isso se torna mais complexo, se somos humanos por critérios comportamentais o que nos diferencia de maquinas quando estas tem um mesmo comportamento? Quando maquinas sentem mais do que nós, podemos classificá-las como mais humanas? Se estamos nos baseando em humanidade, afinal, Deckard estava tentando matar Roy quando este o poupou da morte, quem foi mais "humano"?
Parabéns Roy, você foi digno de consideração moral como o humano que desejava ser.


Enquanto os androides se mostram cada vez mais humanos deixa de ser ético o trabalho de Deckard, e ele tentando entender isso (apesar de ser pouco explorado no filme) é a glória do livro. "Aposentar" os replicantes se torna, de fato, matá-los, e os seres puramente artificiais não fariam isto, exceção para falar com o criador deles, mas pensando bem, quantos você mataria para falar com o seu criador? Parece não ser uma questão tão longe de nossa realidade.

Se Deckard é ou não replicante? É importante você se perguntar isso só após assistir o filme e entendê-lo por inteiro, mas se querem respostas fáceis, sim, ele é um replicante. Existem diversas cenas que dão isso a entender, a mais famosa é a que seus olhos ficam vermelhos, como acontece com os outros replicantes. Sem contar que no meio do filme ele sonha com um unicórnio e no final seu parceiro o dá um origame de unicórnio, como ele sabia? Por que provavelmente foi um sonho simulado por programação. Esse unicórnio inclusive está muito presente na divulgação do filme, estampa a edição especial de 30 anos.

No final Blade Runner é sobre o valor da vida. A busca por razão existencial de Deckard e por vida de Roy são conceitos filosóficos que devem ser discutidos em nossa breve passagem, no decorrer destas perseguições descobrimos o valor experiencial de existir.

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