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The Get Down: Onde há ruína, há esperança

A Netflix está se tornando cada vez mais constante quando se trata de séries de qualidade, às vezes não esperamos nada de suas produções e ela nos entrega obras lindas como Easy e Love, este ano ela se superou com lançamentos praticamente semanais, e neste contexto foi dada ao mundo uma das séries que melhor retratou a década de 1970, principalmente quando se trata da cultura negra e dessa nova forma de expressão artística que nascia no gueto, a mistura de um estilo de vida musical e a poesia das ruas criam The Get Down.



Baz Luhrmann, diretor de longas como "O Grande Gatsby" e o fantástico "Romeu + Julieta" começou a desenvolver o projeto há 10 longos anos atrás, é uma daquelas obras que não se pode deixar passar, aquelas séries belas e com toda uma pegada auto-astral capaz de arrancar do expectador sorrisos e aplausos, sentimentos positivos se misturam com lágrimas genuínas de empolgação naqueles tão belos diálogos, mas apesar disso ironicamente é uma série que não tem pudor quando mostra a violência e o sofrimento presente no Bronx numa época de preconceito e crise. É talvez o projeto mais ambicioso do ano.

A série tem uma montagem mais colorida e teatral, mas usa fatos históricos como a corrida eleitoral de 1977, o lançamento de Star Wars, o blecaute de 36 horas em Nova Iorque, e os próprios ídolos, personagens secundários e eventos frequentados são praticamente todos reais, mas servem apenas como plano de fundo para falar de amor, amizade e descoberta, o que foi criado é uma mistura do drama e melancolia sheakespereana com um estilo musical contemporâneo que não usa a música apenas como artifício de diversão, mas também como de roteiro para avançar a história, o papel da música aqui pode ser diretamente relacionado com o que é visto em Embalos de Sábado à Noite na parte da filosofia da música e ela como estilo de vida, mas com uma visão mais urbana centrada na origem do hip hop e seus quatro pilares: o Djing, o Rap, o Break Dance e o grafite, a arte da rua.

Mas com o movimento Disco crescendo paralelamente, o visual vivo e colorido cria uma espécie de colírio visual que pode até incomodar alguns. Eu sei que não existe crítica imparcial, mas uma crítica tende a ser o mais técnico possível, porém parte de The Get Down está no sentir. 

Mas algo pode ser dito: a série foi absurdamente cara, uma média de quase 10 milhões de dólares por episódio, números que se aproximam de Game Of Thrones, e que conseguem ser vistos em tela com aquelas recriações históricas de qualidade primorosa, enquanto séries como That ’70 Show se limitam a estúdios internos para poupar gastos The Get Down não tem medo de explorar todo o cenário urbano da época. Mas isso acabou sendo refletido em uma temporada dividida em duas partes, cada uma de 6 episódios.

Apesar disso, a dose de seis episódios está na medida exata, que satisfaz sem extrapolar, sem criar uma overdose que poderia ser mortal para a experiência. E o melhor é que houve o cuidado de se fazer um arco completo que, apesar de deixar o gosto de “quero mais”, é suficiente, contando uma história com começo, meio e fim, o próprio piloto já parece um longa, é o único dirigido por Baz Luhrmann e é perfeitamente possível sentir que é mesmo o diretor por trás da câmera.


Ele nos apresenta um mundo underground estruturando sua narrativa descaradamente como um conto de fadas, com a clássica Jornada do Herói como foco principal e com uma mística quase sobrenatural de música, marginalidade, religiosidade e cores, muitas e explosivas cores, seja nos figurinos embasbacantes, seja nas artes de rua, seja no Bronx.


Além disso, ele estabelece o trio principal de maneira muito inteligente, focando em Ezekiel Figuero, um rapaz que sente vergonha de ser mais culto e mais inteligente que seus pares e que é um poeta por natureza, sua paixão de infância Mylene Cruz, uma jovem com voz e rosto de anjo que vive em um ambiente familiar extremamente religioso e cujo sonho é tornar-se cantora de disco e, finalmente, o misterioso artista de rua que deseja ser DJ Shaolin Fantastic. Zeke e Mylene formam o casal à la Romeu e Julieta e Shaolin (ou Shao, para os íntimos) é uma figura quase mística que é visto apenas fazendo sua arte, pulando de um lado para o outro e usando impecáveis e lendários tênis vermelhos. O universo fantástico que Luhrmann cria em pouco mais de 1h30min é fascinante e fisga o espectador instantaneamente.

Já que falei das cores e do design de produção é importante mencionar que ela não tenta esfregar na cara do espectador o estilo da década, tudo se encaixa perfeitamente na atmosfera criada, o figurino impressiona pelos detalhes nas roupas e como elas caracterizam seus personagens. Seja o forte vermelho do Shao ou as cores pastéis de Zeke tudo possuí muita personalidade apesar de serem meio caricatas. E caricatos é uma coisa que estes personagens não são, cada um dos que compõe o casting principal possuem arcos narrativos que se mostram interessantes e complexos, Mylene e seu talento se tornam uma história tão interessante quanto a de Zeke e denuncia toda a industria musical por trás dos grandes nomes, cada personagem funciona como uma peça de quebra cabeça para montar aquele mundinho das ruas nova iorquinas, que, vistos em um plano geral, criam esse retrato tão belo.

O termo The Get Down tem como significado quando um DJ consegue sincronizar a última nota da música de um disco com a primeira do outro, criando uma queda que dá origem a ascensão, e é ali que temos nossos personagens, jovens revolucionários criando outro movimento musical negro que os daria voz para gritar, e infelizmente The Get Down, talvez por uma cultura racista, não teve uma grande recepção pelo seu custo, logo sabemos que a série não durará muito, mas é, de longe, uma das melhores produções do serviço de Streaming, aquela obra que você não pode deixar passar batida na sua lista, anote o que digo: a melhor estréia Netflix em 2016.


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